Afogamentos - prevenir faz a diferença

Todos os anos ouvimos notícias sobre crianças e adolescentes vítimas de afogamento, em circunstâncias descritas como acidentais, associadas à falta de vigilância e supervisão e/ou ao facto de as vítimas não saberem nadar.

Embora todos os anos se realizem campanhas de prevenção, relembrando os cuidados a ter em piscinas, praias ou zonas fluviais, as situações fatais ou com consequências muito graves, continuam a acontecer.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o afogamento consiste no comprometimento das vias respiratórias em resultado de imersão ou submersão num líquido, podendo ou não ser fatal. O relatório da OMS publicado em 2014 refere que anualmente 372.000 pessoas são vítimas de afogamento, e que este está entre as dez causas de morte mais frequentes nas crianças e adolescentes.

Segundo o último relatório da Associação para a Promoção e Segurança Infantil (APSI), entre 2002 e 2013 ocorreram 207 afogamentos com desfecho fatal em crianças e jovens. Foram ainda registados 482 internamentos na sequência de afogamento - o que significa que por cada criança que morreu, 2 a 3 foram internadas. Verificou-se que os afogamentos com crianças mais novas aconteceram mais em ambientes construídos (piscinas, tanques, poços) e com crianças mais velhas em ambientes naturais (praias, rios, lagoas). Quanto à altura do ano, em todos os meses houve registos, sendo julho e agosto os meses com mais casos.

Num estudo efetuado numa Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos (UCIP) portuguesa, publicado em 2014 na revista da Sociedade Portuguesa de Pediatria, foram analisadas as circunstâncias do afogamento, gravidade e prognóstico das crianças e adolescentes internados entre 2006 e 2012. Verificou-se que a maioria das vítimas tinha mais de 10 anos e que os afogamentos ocorreram maioritariamente em água doce, entre os meses de junho e setembro. Nos casos com maior tempo de submersão ou com paragem cardíaca, os afogamentos associaram-se a maior mortalidade ou grau de incapacidade permanente.

A OMS preconiza 10 medidas para prevenir o afogamento, algumas baseadas em ações da comunidade, outras associadas a medidas políticas e legislativas. Gostaria de realçar aquelas que estão diretamente relacionadas com pais e cuidadores e que levam a que se possa assumir o afogamento não como um acidente, mas como uma possível negligência, nomeadamente:

1. Evitar que as crianças em idade pré-escolar frequentem locais de potencial risco e instalar barreiras de segurança de acesso à água. Se as crianças têm acesso a locais com piscinas, tanques ou poços, estes devem estar protegidos ou vedados.

2. Ensinar as crianças em idade escolar a nadar e quais as medidas básicas de segurança e de salvamento. Este ponto é fundamental, pois saber nadar é tão importante como ter um cálculo matemático apurado, ou conseguir ler e compreender um texto. A situação ideal seria o currículo escolar englobar a natação básica, mas não sendo essa a realidade nacional, a responsabilidade cabe aos pais e cuidadores. Muitas vezes constatamos que as crianças e adolescentes são vítimas de afogamento porque, não querendo sentir-se inferiorizados perante os amigos, arriscam para além das suas capacidade, o que lhes pode custar a vida.

3. Ensinar medidas de salvamento e manobras de reanimação cardiorrespiratória a pais e cuidadores. Nos últimos anos têm-se assistido a um aumento da formação de Suporte Básico de Vida a cidadãos que não estão ligados aos cuidados de saúde, nomeadamente com a realização de cursos de reanimação cardiorrespiratória em escolas e autarquias, mas o ideal seria toda a população ter formação nesta área.

O início precoce de manobras de reanimação, corretamente executadas, pode fazer a diferença entre a morte/sobrevivência com lesões neurológicas graves e uma vida salva e sem sequelas.

A APSI e a Direção-Geral do Consumidor elaboraram uma brochura "Brincar e nadar em segurança”, que tem o intuito de alertar os pais e cuidadores para a adoção de procedimentos e de comportamentos que ajudem a diminuir os riscos de afogamento. É de leitura fácil e muito útil e está disponível em http://www.apsi.org.pt. Em anexo encontra-se ainda uma brochura da Direção Geral de Saúde sobre prevenção de afogamentos - principais cuidados a ter.

 

Cristina Camilo

Médica Pediatra, subespecialista em Cuidados Intensivos Pediátricos

Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos, Hospital de Santa Maria – CHLN, Lisboa

Produzido para o Portal C&F da SPP. 05.08.2015

 

Bibliografia

  1. World health organization [internet]. Global report on drowning. Preventing a leading killer. 2014. Acessível em: http://www.who.int/violence_injury_prevention/other_injury/drowning
  2.  Afogamentos em Crianças e Jovens em Portugal. Atualização de casos – Junho de 2015 (documento de referência Relatório 2002-2010) [Internet]. Acessível em: http://www.apsi.org.pt
  3. C. Figueiredo, C. Gomes, C. Camilo, J. Rios, F. Abecasis, M. Vieira. Afogamento em idade pediátrica: experiência de uma unidade de cuidados intensivos pediátricos. Acta Pediatr Port 2014;45:32-36